sexta-feira, 13 de junho de 2008

Profundos como um sepulcro...

'
Michelet define a Revolução como "o advento da Lei, a ressurreição do Direito, a reação da Justiça" Ele discute em seguida o dogma da salvação pela Graça, que é, para ele, a própria negação da Justiça, pois, "se permanecermos fiéis ao princípio de que a salvação é um dom, e não o pagamento da Justiça, o homem cruza os braços, senta e aguarda; sabe que suas obras não podem fazer nada por sua sorte. Toda atividade moral cessa nesse mundo".

Como não há Justiça, o Julgamento não passa de uma comédia que se encena nas Igrejas. "A criança, o inocente, criados voluntariamente para o inferno!". Ao ver a criança condenada, "essa chaga profunda, espantosa, no coração materno", escapa o primeiro suspiro do homem medieval, o primeiro "Mas", um suspiro tão baixo...

"Tão baixo, mas tão destruidor!... O homem que o escutava na noite não dormia mais essa noite... e nem outras... E na madrugada, antes do dia, ia aos campos trabalhados; e então encontrava ali as coisas mudadas. Encontrava o vale e a planície mais baixos, bem mais baixos, profundos como um sepulcro; e mais altas, mais sombrias, mais pesadas, as duas torres no horizonte, sombrio o campanário da igreja, sombrio o torreão feudal... E começava também a compreender a voz dos dois sinos. A igreja soava: Sempre. O torreão soava: Nunca... Mas ao mesmo tempo, uma voz falava mais alto em seu coração... Essa voz dizia: Um dia!... E essa era a voz de Deus!

Um dia virá a justiça! Deixe aí esses sinos vãos, tagarelando com o vento... Não se alarme por sua dúvida. Essa dúvida é a fé mesma. Creia, espere; o Direito adiado terá seu advento, virá ocupar, julgar, o dogma e o mundo... E esse dia do Julgamento se chamará a Revolução."

MICHELET, Jules. Histoire de la Révolution Française. t.1. v.1. Paris: Gallimard, 2007. [1ª ed. 1847-1853]. (Folio Histoire). pp. 21, 28, 32 e 33. (Tradução minha).
,

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Diário de um Cucaracha

'
New York, 5 de outubro de 1973
A seriedade aqui chega a ser engraçada. Quando perguntaram ao Francis no hospital, na hora de fazer a ficha, qual era a religião dele, saiu pro deboche e disse: “Trotskista.” Aí a enfermeira pediu: “Poderia soletrar?”

New York, 29 de novembro de 1973
Paulo Francis ainda não me ligou, mas já tinha perdido o fogo há muito tempo. Ele disse que já previa que iam cortar tudo. Ia mandar sem a menor esperança. De fato ...
Agora, esta de cortar até anúncios já é requinte demais!
Liberaram minhas diquinhas? Devo ficar alegre ou triste?
Não entendi uma coisa: você disse que liberaram um fradim. Qual? Aquele que mandei para reapresentação e que tinha sido cortado pela censura do Rio? Se foi, eu vou mandar todo o pacote que tenho aqui de cartuns vetados, para testar a falta de unidade de critérios da censura. Amanhã seguirão todos! Será? Será?

New York, 6 de dezembro de 2973
Deixa eu dividir com você (a leitura de uma notícia, assim exercitando seu precário inglês): uma senhora de seus 65 anos recebia seguro social, vivia na maior economia. A tal pensão mal dava pra ela pagar o aluguel do seu quartinho, que deve ser num dos milhares de espigões daqui de New York. Sobravam 30 dólares por mês para comer! Ah! Deixa eu explicar mais. Em geral, os velhos aqui são abandonados pelas famílias em asilos, feito indigentes. São asilos muito pobres. Escandalosos para um país rico feitos os EUA. No Natal os filhos levam presentes e maças para seus pais asilados. Vi num filme, e era uma comédia, que mostrava tudo isso[...] E a tal velhinha fazia isso. Se equilibrava um mês inteiro com 30 dólares. Segundo testemunhos dos vizinhos do prédio, ela estava sempre alegrinha e saia cedinho para passear até de tarde, quando voltava. Nunca pedia nada. Uma solidão que dava na vista. Mas foi o testemunho de um vendedor de sorvetes desvendou tudo. A velhinha se abria um pouco com ele e sabia que ela, para que o dinheiro desse, começara a se alimentar de sorvete. Com o maior dos escrúpulos recusou a sugestão dele para que ela parasse de pagar aluguel. Nos últimos dias, conta ele, ela passou a tomar só um sorvete de manhã. E era tudo. E ontem, enquanto arrumava suas coisinhas antes de dormir, a velhinha caiu no chão e morreu. De fome.
É um modelo de sociedade igual a este que estamos construindo no Brasil pros nossos velhinhos, Zé. Nossos pais, Zé. Pra nós, Zé. Haja sorvete, Zé!


HENFIL, Diário de um Cucaracha, 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1983

Sabe do Henfil? Aquele da música da Elis Regina? Um dos maiores cartunistas brasileiros. Na minha não tão humilde opinião. Cartunista dos maiores jornais do período da Ditadura brasileira. Esse livro é uma reunião de cartas que Henfil envia dos Estados Unidos (onde foi fazer um tratamento para hemofílicos!) para seus amigos Tárik de Souza e José Eduardo Barbosa.

As discussões são tão atuais e pertinentes, que parece que foi escrito ontem. Entre a fascinação e os fatos reais e cruéis, entre a eficácia e a indiferença humana de um mundo, segundo Henfil “a São paulo no ano 2000”, com muito humor, o autor envia notícias para “terrinha da censura”.

Em tempo: Cucaracha, pra quem não conhece, é como os estadunidenses se referem aos latinos-americanos e que quer dizer: baratas!
Em tempo 2: "A edição especial para mulheres" contem uma entrevista que Henfil deu para o Jaguar, o Ziraldo, o Sérgio cabral e o Millôr. Impagável e imperdível!
.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Links!

E ae galera! Queria pedir aos frequentadores do blog que indicasse links bacanas para montarmos uma boa lista! Podem enviar pros comentários desse post ou me mandar por e-mail!
Quero agradecer a galera que posta com frequencia e voltar a convocar novos membros!
Valeu!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Diogo Mainardi é minha anta

'
Crônica: O BRASIL PIORA SE LULA FICAR

“Minha proposta é que os parlamentares nomeiem uma comissão de notáveis, composta de juristas e tributaristas, (..). Eles seriam encarregados de redigir uma ampla reforma do Estado, para cortar aposentadorias, eliminar impostos, abater sindicatos, suprimir direitos trabalhistas, limpar o Judiciário e diminuir o peso dos políticos, enterrando boa parte das asnices de nossa Carta Constitucional. Depois disso, o texto passaria por um plebiscito. O Brasil ficaria melhor.

Pág. 44.


Crônica: O RETRATO DO NOSSO FRACASSO

“Eu sei que em tempos de populismo rasteiro não pega bem afirmar algo assim, mas o voto popular não é necessariamente o melhor método para escolher nossos governantes. Eu não escolheria Lula, por exemplo, nem para abrir e fechar o portão da garagem do meu prédio. O seu José é melhor. É mais eficiente. É mais honesto. O eleitor erra. Quase sempre. Em todos os lugares. O que torna a democracia incomparavelmente superior a todos os outros sistemas não é o método de escolha dos governantes, e sim a possibilidade que ela dá de nos livrarmos deles.”

Pág. 79-80.


Crônica: JORNALISTAS SÃO BRASILEIROS

“Nas últimas semanas, a imprensa tem se dedicado a analisar a frouxidão moral dos brasileiros. Está certo. Os brasileiros são moralmente frouxos mesmo. Isso ninguém discute. Mas a imprensa certamente não é muito melhor.”

Pág. 89.


Crônica: PEDI O IMPEACHMENT DE LULA

“O presidente da CUT, (...), disse que não dá para entrar com um pedido de impeachment como quem "compra rabanete na feira". Dá sim. Eu não sei escolher um rabanete. Por outro lado, sei o que esperar de um presidente. Lula é um mau rabanete.

(...)

O presidente da CUT avisou que, caso o pedido de impeachment prospere, movimentos sociais como CUT, UNE e MST tomarão as ruas em defesa do mandato de Lula. Duvido. Ninguém foi às ruas para pedir o impeachment. Mas ninguém irá protestar contra ele. O máximo que pode acontecer é que um punhado de arruaceiros quebre uma ou outra vitrine. Ou seja, nada que umas cacetadas no cocuruto não resolvam.”

Pág. 93.


Crônica: FIDEL É BRASILEIRO

“Fidel Castro é brasileiro. É o que dizem alguns pesquisadores paraenses. Eu sempre desconfiei disso. Tudo o que é ruim tem um pé no Brasil. Procurando direito, a gente conseguiria encontrar a origem brasileira da peste negra, do efeito estufa, da seborréia, do teatro de rua, do imposto de renda.

De acordo com os pesquisadores paraenses, o pai de Fidel, Angel Castro, conheceu sua mulher, Delphina Smith, no interior do Pará. Mais precisamente, na cidade de Tracuateua, que parece um trocadilho chulo do colunista Agamenon Mendes Pedreira. Foi ali que eles geraram seu filho ilustre. Em 1960, Fidel Castro mandou Che Guevara ao Brasil para incendiar o cartório de Gurupá, eliminando todos os vestígios de seu nascimento. Eu entendo Fidel. Dá mesmo vergonha de ser brasileiro. Todo brasileiro com um pingo de caráter deveria mandar incendiar o cartório em que foi registrado. Incendiar o cartório de Gurupá foi a única manobra militar que o pateta do Che Guevara conseguiu realizar direito. Che Guevara era o despachante de Fidel.”

Pág. 125.


Crônica: GINECOMASTIA, SANFONEIROS, POBRES

“Acompanhei a estréia da propaganda de todos os candidatos a presidente.(...).

O programa de Lula foi muito simples e eficiente. Primeiro apareceu Lula, com um sorriso apatetado, dizendo as mentiras de sempre e penando para seguir o teleprompter. Depois apareceu o retrato de um monte de gente feia e pobre. O locutor disse: "Lula tem a cara do povo". É verdade. Nos últimos quatro anos, Lula enriqueceu. Colocou jaquetas nos dentes e Botox na testa.”

Pág. 127-128.


Crônica: SEM LULA, O MUNDO É MELHOR

“Os pobres ignorantes são o principal tema de disputa entre os analistas de pesquisas eleitorais. Em particular, os pobres ignorantes do Nordeste. Os lulistas acreditam que os pobres do Nordeste são tão ignorantes, mas tão ignorantes, que vão acabar votando em Lula, apesar dos quarenta malfeitores. Os tucanos discordam. Eles acreditam que os pobres do Nordeste podem até declarar voto em Lula nas pesquisas eleitorais, mas são tão ignorantes, tão ignorantes, que vão apertar o botão errado na hora de votar, anulando suas escolhas. Sempre que Lula ultrapassa a barreira dos 50 pontos, sou obrigado a apelar para esse argumento.

(...). O Brasil é dominado por uma massa de pobres ignorantes. Eles estão decidindo por nós. E estão decidindo muito mal. Isso se não confundirem os algarismos e apertarem os botões errados.”

Pág. 136.


Diogo Mainardi. Lula é minha anta. 2ª Edição. Ed. Record.

Histórias Vividas

"Refleti muito sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. O meu desenho número 1. Ele era assim:

"Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes dava medo. Responderam-me: "Porque é que um chapéu daria medo?"
"Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem entender melhor. Elas têm sempre necessidade de explicações detalhadas. Meu desenho número 2 era assim:
"As pessoas grandes aconselharam-me a deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas e a dedicar-me de preferência à geografia, à história, à matemática, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma promissora carreira de pintor. Fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar a toda hora explicando.

"Tive então que escolher outra profissão e aprendi a pilotar aviões."


Saint-Exupéry, Antoine de. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro, Agir, 2006.


Li ainda hoje, em pouco mais de uma hora, esse livro fantástico. Escrito em 1943, por um francês exilado nos Estados Unidos, hoje o Pequeno Príncipe alcança a marca de tradução para 80 línguas diferentes. "Como compreender que uma história aparentemente tão ingênua seja comovente para tantas pessoas?"
Qualquer um que se acha finalmente um adulto deveria tirar um tempo para reler O Pequeno Príncipe. Na verdade, cada pessoa deveria ler pelo menos uma vez no ano, quiçá no mês. Ele "devolve a cada um o mistério da infância. De repente retornam os sonhos."
Não deixem o lado adulto falar alto. Sejam sempre crianças. O mundo está cheio de maravilhas e simplicidade para todos. E até um livro de criança, como dizem que esse é, é capaz de mostrar que o segredo da vida está mais embaixo do que se imagina.

sábado, 31 de maio de 2008

Que é história?

'
Ranke acreditava piamente que a divina providência cuidaria da significação da história se ele cuidasse dos fatos... A concepção liberal da história do século XIX tinha uma estreita afinidade com a doutrina econômica do laissez-faire... Era a época da inocência e os historiadores passeavam pelo Jardim do Éden... nus e desprovidos de vergonha diante do deus da história. Depois, conhecemos o Pecado e veio a experiência da queda, e os historiadores que pretendem hoje dispensar uma filosofia da história (entendida no sentido de uma reflexão crítica sobre a prática histórica) tentam vã e simplesmente, como os membros de uma colônia de nudistas, recriar o Jardim do Éden em seu jardim de subúrbio.

CARR, E. H. What is History? Citado por: LE GOFF, Jacques. Histoire et Mémoire. Paris: Gallimard, 2004. p. 198. (tradução minha).
Lembro que, como se pode ver na referência, o livro que eu estou lendo é o do Le Goff, não o do Carr; mas não acho exagero deixar o número de chamada do Carr na BC da UFES para os que, como eu, se interessaram pelo autor (930.1 C311q).

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Praticando a enrolação...


Nessa altura alguém escreveu um artigo a reclamar que o debate regressante à questão que lhe havia dado origem, ou seja, se sim ou não a Morte era uma ou várias, se era singular, Morte, ou plural, Mortes, e , aproveitando que estou com a mão na pluma, denunciar que a igreja, com essas suas suposições ambíguas, o que pretende é ganhar tempo sem se comprometer, por isso se pôs, como é seu costume, a encanar a perna à rã, a dar uma no cravo e outra na ferradura. A primeira dessas expressões populares causou perplexidade entre os jornalistas, que nunca a tinham ouvido ou lido em toda a sua vida. No entanto, perante o enigma, espevitados por um saudável afã de competição profissional, deitaram das estantes abaixo os dicionários, com que algumas vezes se ajudavam à hora do que estaria fazendo ali aquele batráquio. Nada encontraram, ou melhor, sim, encontraram a rã, a perna, encontraram o verbo encanar, mas o que não conseguiram foi tocar o sentido profundo que as três palavras juntas por força haveriam de ter. Até que alguém se lembrou de chamar um velho porteiro que viera da província há muitos anos e de quem todos riam porque, depois de tanto tempo a viver na cidade, ainda falava como se estivesse à lareira a contar histórias aos netos. Perguntaram-lhe se sabia o que significava e ele respondeu que sim senhor sabia. Então explique lá, disse o chefe da redação, Encanar, meus senhores, é por talas em ossos partidos, Até aí sabemos nós, o que queremos é que nos diga que tem isso a ver com a rã, Tem tudo, ninguém consegue por talas numa rã, Porquê, Porque ela nunca está quieta com a perna, E isso que quer dizer, Que é inútil tentar, ela não deixa, Mas não deve ser isso que deve estar escrito na frase do leitor, Também se usa quando levamos demasiado tempo a terminar um trabalho, e, se o fazemos de propósito, então estamos a empatar, a encanar a perna da rã, Sim senhor, Logo, o leitor que escreveu tem toda razão, Acho que sim, eu só estou a guardar a entrada da porta, Ajudou-nos muito, Não querem que lhes explique a outra frase, Qual, A do cravo e da ferradura, Não, essa conhecemo-la nós, praticamo-la todos os dias.

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Um trecho do grande José Saramago, do qual sou fã, em que ele critica determinadas posturas da igreja (como sempre) e da imprensa ao mesmo tempo, e com uma irônica sutileza. Genial. Espero que apreciem.